14.3.12



                                            Imagem de capa

                                                       da série UliSSeS
                                                       por AGUILAR 

                                                       http://www.aguilar.art.br/expose/index.html


Velocidade
da Carne 






Marcos Arrais











 I - Velocidade da Carne............ 2




          II – Coração do Mistério........... 30




 III – Ocaso do Corpo..................47









I - Velocidade da Carne








Velocidade da Carne

Tudo é novo
E a vida se acelera:
Raras, inefáveis direções!

Bem quando o
              que mais quero
                          é calma
Calma para enfrentar a
                             Carne.







Enigma

Toca-me este sabor
    estranho e íntimo
Roça-me a pele
Arrepia-me o cabelo
O enigma obscuro

Um gosto de morte
Agarra-me a língua
Apanha-me o sexo...

E põe-me inteiro!
Num breve momento                        
                    Absoluto








Caçador na Madrugada

O caçador não mais se encontra
   Foi procurar sua carne
   Foi procurar seus ossos
   Foi procurar seu sangue
   na terrível madrugada
   Se ele volta, não se sabe

Carros passeiam velozes pela estrada
           Vozes estridentes se misturam
                         ao ronco dos motores
As turbinas lançam sua fumaça
        escura e pesada pelos ares

O caçador saiu para uma volta
Voltou com sua carne
Seus ossos, seu sangue
E mais uns litros de cachaça








Terror Indiferente

Passo num vôo veloz
pela vila desconhecida
Só o Diabo me aterrissa
O vento novo me apara

Mas em terra firme
nada mais resta
além do Terror

O Terror puro
de quem nada sabe
O Terror puro
de quem desconhece

e desconhece
mais que tudo
a Natureza pura
e indiferente
Do Diabo









Proposta Insana

Para chegar mais perto
do que procuro dizer
Para fazer ceder
Essa musculatura rígida
Esse gelo tático
de sobrevivência
Posso prestar uma ajuda
Insana

De imediato
Deves perder  toda esperança
Deves ser reduzido e amplificado
à sua realidade absoluta
Deves ser simples e atento
às coisas mais óbvias e simples
Deves lembrar que a velocidade
                                   É máxima
Dentro de teu tempo tão instante

Por fim e desde o princípio
(eis o mais importante)
Deves saber que
não deves nada
A ninguém
E a nada






O Destruidor


A destruição bate a porta:
Um, dois, três toques
Que seja...

A casa está cercada
Janela e portas arrombadas
Que seja...

O engenheiro mina a fundação
Será a definitiva implosão?
Que seja...

Rio tranqüilo, como quem
         entendeu o achado
Uma grande e destruidora
             gargalhada explode

Acho que, enfim
Entendi o recado








Surfista de Trem

O coração dispara!
Com uma das mãos afrouxe o cinto
Com a outra, apare o trem
desgovernado, sem direção

Mas se não pára, resista!
Salte e suba na coragem
Na manha malandragem
do despossuído

Porque agora é a vez !
Equilíbrio risco do surfista de trem
no vai-e-vem, cai-e-não-cai
até a próxima estação








Tarzan, o Filho da Selva


Tarzan, o filho da selva
A selva, o filho do homem
A selva, o lar de Tarzan
Tarzan, a casa do homem

A selva de Tarzan
corre nas veias do homem
para lhe dizer a que veio

Na viagem de seu sangue
segue a amizade de Chita
e o amor violento e imprevisível
                            De King Kong








Dia da Espada

Eis o dia...
De novo a lâmina fria
   da espada no umbigo

O cheiro doce da sangria
O brilho sincero, que tanto queria
Me pergunta: para que vivo?
                                                  
 Suor frio...
 Tremer de mãos...
 E a miragem do Sol que aparece
 em mil cores desconhecidas

 Enquanto o sangue escorre
 pelos dois lados da espada
 Me equilibro/desequilibro
 sobre a lâmina  afiada
 a separar os Dois Mundos










A Guerreira

O dia vale pela luta
A luta vale pela vida
Por mais uma vitória
na ínfima vida da guerreira

Porque fora disto
Pra ser franco
Pouco há de sentido
Mas muito há de heróico

O dia vale pela luta
A luta não vale pela luta
A luta vale pela invenção
                        Da guerreira








Novo Mundo

Parei de esperar
Porque nada importa
no estranho Mundo
que exibe a cor do ar

(A voz de Deus
O cheiro do Demônio)

Deixei de lembrar
Já que tudo acontece
no estranho Mundo
de instantâneo encantamento

(Sob o amor de Deus
Sob o beijo do Demônio)








Deuses e Demônios

Como o arredor pode
Ser tão estranho?
Como o mundo pode
Estar contaminado
            de Deus e Demônio?

Entre Deuses e Demônios
e outras idéias débeis
                   e desânimos
Persistimos caminhando

Mas persistimos e
                    caminhamos...


           




  Viagem

  Penso que vim para aprender
         um pouco a viver
    Aprender, humildemente
o possível, o acessível, o permitido

  Sinto que vim para aprender
   a perder, aprender a morrer
  sem terror, somente no medo
       possível e humano

 Vejo que vim para aprender
a renascer uma, duas, mil vezes
  novamente, humildemente
   no acessível, no permitido

Cujo limite só se descobre
      na coragem do abrir
  as grades do desconhecido

Creio ter vindo para aprender
           Desta coragem
Para a aventura da sempre nova
         e perigosa viagem








O Que Acontece?

O que acontece que
quanto mais te perco
mais te amo?

Que quando te vejo
tanto estremeço
que esqueço de te amar?

O sabor da tua boca
O calor de teu ventre
Com que força surgem

Quando perco o medo
de perder e morrer por inteiro
Quando me atiro, me arremesso
E de ti nada espero
                
                  ...quando já perdido








Gravidade
Do alto do pequeno avião
O coração bate mais forte
ao ver a tempestade
ameaçar suas asas
O mundo é aquático
no Amazonas
Tremo de medo
com o trovão elétrico

Luz do dia...
Avistamos do Amazonas
O Delta.
Corre o grosso caldo
(Veias de minha mão)
Para desaguar no Mar
de mistério

Noite fria...
Corta o céu
o raio paralisante
Faz-me pequeno
Muito
Sua luz de eletricidade e morte
(Veias de minha mão)
desabam do céu no chão:
Secreta gravidade







Tempestade

A tempestade
      nas linhas da mão
      e a calmaria
      que depois da chuva
                            invade...

Amanheceu claro o dia
Onde é feita a Liberdade!
     
(Um súbito raio de Sol
faz, rápido, de repente
Com que tudo se acabe
pra despertar diferente)








Subcutânea

A pele é mágica
Bem mais que mera
aparência

Mas ainda há
a alma na medula
o coração da célula

Por trás da casca dura
Sob a superfície clara
A realidade é outra
A escuridão é densa









Substância

Que o beija-flôr baile
diante dos olhos abertos
Que o morcego crave
suas presas na carne

Viver-me basta
em qualquer aparência
Sob a teia do Sol amarelo
Sob a prata da chuva
                          a molhar os pêlos

 ...para não mais que viver
                         minha própria            
                                       substância








Polvo

Um polvo
Um Sol luminoso
De infinitos tentáculos

Um polvo
Um  todo Universo
Líquido, sólido, gasoso

Um polvo
Misterioso
De um claro obscuro
Duvidoso

Pendura-se nas paredes
Transparentes deste
Mundo-Oceano









Esfinge

Água-viva
Minério-animal
Indecifrável

Viva a água
Solúvel o sal
Mar navegável

Espraio no espaço viajável?
Ou serei o próprio espaço
Num ponto indissolúvel?










Mansão do Corpo

Seu corpo é minha mansão
Assim como o céu: Imensidão
Exaltado bate forte o coração
             com tamanha beleza

Você meu amor. Eu guardião
Faço no amor o milagre da união
de seus elementos e a fusão
        como no coração da estrela

Nem mais feia
Nem mais bela
Nem maior nem
Menor que ela

Teu corpo sou eu:
O Infinito a ver-me refletido
                   no céu estrelado
Quando abro as janelas









Desejo

Amanheceu...
Céu cintilante...
       curiosas nuvens
                      rarefeitas

Com o Sol
desperta meu corpo
Minha amada me acorda
com seu beijo

O bico do seu peito
aponta e dispara
meu desejo

O desejo
é aquele que corre os dias
Que corre o mundo
e nunca pára

O desejo é o cara







Língua

O suor sob o Sol
faz brilhar o teu
corpo todo dourado

O Sol lambe
meu corpo e o teu
entregues e atados

O sal do teu corpo
sai na minha língua
                     e ah!!!

Deixa estar...
Deixa ficar...
No meio do torpor
que o teu corpo
minha saliva água








Delícia

Sua pele
Mais fina
Sua carne
Mais lisa
Sua forma
Mais linda
O Espaço
Paraíso
Onde
Eu
Respiro
Pra
Que
Você
Exista







Mente da Pele

A mente pensa
Pensa que está na cabeça
A pele sente

A mente pensa
que sente a pele
A mente mente
quando cabeça
Assim pensa a pele






  


Pele

A pele
Nos une
E afasta
Quem é ela?

A pele
Nos abraça
E é uma
Dos pés à cabeça

A pele
Essa que
Me aquece
É sua

Agora que
Nua
A confiança
É minha







Fronteira do Medo

A fronteira do permitido
quando em ti é brincadeira
no quarto de sussurro proibido

Um mergulho em teu umbigo
(O abismo depois da loucura)
Onde sou mais que teu
Sou todo meu sem fronteira

A língua de carícia doce e lisa
A boca em tua coxa inflama
Os lábios no calor de tua xana
A dentada no tesão da tua bunda

A fronteira do oculto medo
Desaparece no encontro que é nosso
Para vibrar no riso de selvagem alegria








Pequena Chama

A pequena chama
fala do Sol
Do nascer e do morrer

Fala dos astros
Infinitos no céu
A pequena chama

Fala da leveza
Daquilo comum a tudo:
A falta de peso no Todo

A pequena chama
fala do que é como eu:
Você no Eu do Amor
enquanto te como






Ar

Levanto-me do sofá
e saio a procurar a brecha
a fresta por onde
o ar passa

Por onde eu possa
profundamente respirar
Banhar a pele no ar
Na carícia mais sutil

Por onde a experiência vívida

                                  possa transbordar


Mas, talvez, nem precise levantar
Pois, no conforto distraído e imóvel
Na forma  mais tola e fácil
eu possa estar sempre no lugar
onde o ar, ele mesmo, sempre está


  




Viver

Viver no corpo
Viver com o corpo
Viver o corpo
O próprio corpo poder ser

E mesmo sem saber
o que Vida e Corpo são
Poder falar de prazer
amizade amor gratidão

É o que o corpo pede pra dizer
É o que a vida ensina sem saber









Movimento

Estou imóvel
a mil quilômetros por hora
a mil quilômetros de casa
e não saí do lugar

Estou aqui, estou lá
A caminho!
Estático no lugar
       de puro
    movimento

Estático
onde mais posso sentir
este Mundo todo táctil










Instante


Tempo sem tempo
Sem esperança
Sem lembrança
Onde tudo acontece
Onde você se esquece
Num bocejo descansado
De Tigre











Novidade

Vida é feita
de um tecido
muito delicado

Quando o medo
bem cuidado
se acalma

Pode-se sempre
ver, da vida
O assombroso lado













Serpente

No adormecer-antes
Estremeço
De repente a língua
Da serpente surge
No semblante sereno
De Buda









Inquietação

Nada inquieta tanto
quanto a calma

Nada perturba
tanto a alma
quanto a água
parada deste lago fundo

Por isso
              estaco e paro:
Para sentir emergir
esse dragão lindo
Para ouvir o rumor
desse monstro imundo








Criar...

Criar...
Que pretensão!
Não há porque fazer
Ou deixar de fazer...
Mas o ar entra
Pela porta aberta
Como um furacão
E faz brotar do silêncio
A palavra e o som
Que faz tremer

Criar...
Não é criar
É matar e morrer








Possível Liberdade

A liberdade é só para quem
Como eu, gosta, também
do gosto amargo das coisas
e das coisas sem gosto nenhum

A liberdade só se toca ali
por trás do bloco duro
Contra o áspero muro
e o espesso vidro que não vi

Por isso, que o desconforto e a dor
sejam bem vindos, quando assim for
Que os reconheço como amigos
a indicar uma real e possível liberdade

                                             







Dominação

Aquele que te deu a mão
Um dia te dominou
Aquele que te salvou
Um dia jogou-te ao chão

Tudo que te faz cativo
Um dia te libertou
Tudo que te libertou
Um dia te agarrou

Agora é tua vez de agir
E agindo encontrarás
Tua nova prisão







Tempo de Ninguém

O vampiro na noite afora
Um tiro perdido, a esmo
O diabo na encruzilhada
O sentido nas asas do Tempo

Tempo de ontem
Tempo de hoje
Tempo de amanhã

Tempo seu
Tempo meu
Tempo de ninguém

Deus nos deu pouco Tempo
E o Momento que é imenso
Um diabo, um vampiro, um tiro a esmo
E um futuro grande que é agora mesmo







...No Presente

No futuro
A estratégia para te ter
Prever onde te encontrar
Planejar para que não faltes

Do passado
A ciência para não falhar
Repetir para conservar-te
                            ao meu lado
Evitar o risco e o erro
                             novamente

À serpente
Nada disso importa
À águia
Cabe o olhar indiferente
Ao urso
A Vida confiante

No Presente








Busca do Sentido

Enquanto a Vida passa
e o Tempo avança
Inventamos o significado
que a palavra
na amorosa boca alcança

Mas a língua heróica
fala do sentido sua falta
De uma tal insignificância
que no final a boca cala
e abala qualquer confiança









Faróis

No Mar a miragem
de faróis radiantes
acalmam a viagem

E ofuscam a verdade
A mais simples verdade:

Faróis não são Sóis Incandescentes
São luzes mirradas e tristes
Faróis e seus raios artificiais
Não iluminam marinhas serpentes
Não revelam o poder dos dragões

(Na solidão da viagem
Chama a atenção
A Constelação Desconhecida
Que lança sua flecha acesa:
Vê-se do Céu a explosão
sobre nossa cabeça)








Heroína

A heroína arremessa a lança
                  que me atravessa

Quando sua ponta me toca
A respiração se solta
e um torpor me alivia a  testa
Sinto que mais nada importa

A heroína arremessa a lança
        e desperto de um sonho
Da ciência banal na vigília
para outra estranha fantasia









Novo Movimento

O Tempo novo
Pede que tu te tornes outro:
Maravilhoso movimento!

Monstro felino lindo e ágil
toma teu rosto falso de assalto

Pra nascer a face certa
Brava, calma ou amiga
Na exata hora da luta
Na hora certa da orgia bruta

O Tempo novo
pede que saias do aposento
para ser leve e brevemente outro:
Tão livre quanto o vento
Tão coeso quanto o tigre
                em movimento









Matilha

Pode estar certo
A matilha que te persegue
não fala de amor

Os cães e suas bocarras gigantes
não dizem obrigado nem por favor
Quando seus dentes tocam tua pele
A elétrica corrente corre por sua       
                             espinha: o terror

Fique esperto
Cães ferozes te vigiam
Talvez não tenham muito amor
Habitam não se sabe que mundos
Estão atentos, alertas, vitais
Seus olhos faiscantes miram suas mãos trêmulas
Não adianta escondê-las para trás






Não esteja mais tão certo
do que querem seus rivais
Ferozes cães gigantes
te procuram, te perseguem
Quem sabe, por amor e amizade
Mire bem nos olhos famintos
sua vontade

Verás, talvez, cães a farejar
seu caçador, seu senhor
Para encontrar o verdadeiro amor
em sua fiel lealdade








Minha Tribo

Sem você não pode ser
Com você é tão difícil
Sendo você é impossível
Nós dois somos seres
de duro trato

Você é o Espírito de Época
Tem o jeito do tempo atual
Que cai e brota no Espírito dócil

Mas minha tribo
é de um Espírito muito brabo
que aspira a uma absurda Liberdade
Para Você intolerável








Luta do Espírito

Há um  vapor estranho
no ar que ofusca o olhar
                diminui as mentes
                mina as palavras
                aleija os sentidos

o que há de mais concreto e real
é o Espírito de um local
num tempo preciso
que brinca de  criar
um corpo igual mas cativo
com o qual negocio
mas não me submeto

Por meu Espírito liberto
Com meu Espírito desperto
                            Espreito e luto







Linhas do Tempo

Mar bravio as ondas prometiam...
Perfeitas em vôo e quebradeira
Seus tubos de água e vento
entoavam melodias que nem todos ouviam

Prometiam menos o esperado...

Um canto conhecido
fez-me infantil novamente
Meu corpo embalsamado...

Um outro canto olvidado
fez-me quase morto
No mar, envelhecido

Um terceiro canto
banhou-me no mesmo instante
Morto e renascido
no vértice fundido
das três linhas cruzadas
do Tempo








Abraço do Poder

Quem foi Napoleão...
Quem foi Da Vinci...
Quem pode saber?

Sei de Napoleão
que seu poder foi pobre
Sei de Leonardo
que seu saber foi distração

Na planície gelada e distante
(O Céu azul acasala com a Terra e
Tocam-se amorosos no Horizonte)
há um urso cinza gigante

Que tudo sabe
E te convida
para um abraço
de Poder e Verdade


        







O Que Fazemos?

Talvez nada faça
de fato sentido
em tudo isso
que faço...

Talvez nada possa
saciar sua fome
pelo fato de ser falso
aquilo que você come...

O que fazemos por nossa fome?
O que comemos enquanto fazemos?
O que fazemos para alimentar o homem?
O que fazemos?


  


II – Coração do Mistério



  







Feitiço

Você diz
Eu acredito.
(A Verdade tem mil maneiras
De nos enfeitiçar)








  
Sobreviver à Verdade

Para sobreviver à Verdade
não há outra saída senão
reduzir-se em monstruosa humildade

            (É quando um grão de areia
             equivale a um dragão
             sobrevoando o Himalaia)

Daí as Asas do Juízo então
não mais trabalham
Num Tempo em que o Bem faleceu
Num espaço onde a Maldade
                                 Nunca existiu

Para sobreviver à Verdade






A Incrível Leveza do Ser

A incrível leveza do ser
surgiu do céu estrelado
pra cair sobre sua cabeça

A incrível leveza do ser
surgiu para aliviar e torná-lo 
                                       radiado
A estrela caiu
e ele subiu com 
                                  novas asas

Voando, tornou-se mosca
                              de leveza
Voando esqueceu-se do
                         caminho e da  pedra                                       
E viajou o mundo atrás de
                       detrito  lixo
                                             e merda
                                     






O Torto
O que erguer
sobre as ruínas do futuro
sobre a areia movediça do passado?

O que pode ser
enquanto desconforto
enquanto rabisco o verbo torto

Senão a tensão pura do Ser
                                interrogado
A energia vacilante de
Hamlet contra o muro?

(A ponte esticada entre
        o Vivo e o Morto
O riso da mãe e a dor do pai
            do filho que eu parto)
                                                                
                                     No entanto
Antes o bicho ferido que o Ser
                                      anestesiado
Antes o Sol surrando a pele
que a falta no Ser   
                   olvidado







O Que Não Se Almeja

No limbo
No lodo
Viver todo
Enterrado

Na espera
Estrangeira
No vidro fosco
Do dia nublado

No limbo
No lodo
Que ninguém
Almeja

No copo
Frio
E entediado
De cerveja









Ódio

O ódio te toma e
Põe teu corpo em forma
Agarra então tua força que
Agora a luta é sangrenta

Que ordem no mundo é esta?
Que fome de coisas é esta?
Que vazio é este
                que nada alimenta?

O corpo de puro ódio cresce e
É tudo o que te sustenta











Sem Pensar...

Ganhar, perder...
Nem ganhar, nem perder...

Nem pensar em ganhar
Nem pensar em perder

Estar ao teu lado e gozar
Sem pensar, sem pensar
Sem pensar...










Sereno da Noite

O sereno da noite cobre a pele
Um banho de sol derrete a carne
A brisa leve suspende o corpo denso

Respirar e sintir...
E pensar sem pensar
...um breve instante
sem sequer imaginar







  
Os Céus

A embarcação dispara
e o cometa corta
a imensidão do Céu
Infinito de Mistério

O Céu das estrelas
O Céu dos meus olhos cerrados
O Céu da boca silenciada
O Céu da memória sem fim
O Céu de meu amor no Mundo
O Céu das coisas do Mundo
O Céu  das Coisas e Não-Coisas
O Céu de todo corpo que sou
O Céu de meu amor por Lucila



Onde estou quando
encontro-me em seus braços?
Onde estou quando
teu corpo é meu
Céu de amor e soluços?
Onde estou quando
o limite do sono
sonha Infinitos?

Onde estava quando
os Infinitos pela primeira vez
brotaram nos olhos?

A embarcação dispara
em direção àquilo que sou
                           
Sem fantasia








Delicadeza

Uma delicadeza bruta
respira no sono claro
e toca o coração cansado

Cochilo, sonho e desamparo
dissolvem o peito de pedra
para uma alegria simples
                            e sem luta














Outra Delicadeza

Não falo de mim
Não falo por mim
Falo dela: a delicadeza
Forte e assassina
Cheia de esperteza
A cruzar o solo minado
A passear pelo jardim encantado
Leve, alegre e cantando
E sem que ninguém veja
O corpo inteiro armado

A delicadeza








Amor

Meu amor encontra-se
         em teu corpo
    No olhar que a alma
               faz brilhar
       No gesto
                   onde o espírito
                       se revela
              No prazer
                          que seu sexo
                  Faz, para sempre, existir

Meu amor perde-se
  Em teu corpo
    Em teus olhos
      Em teu ventre
Para ser um outro amor
No coração do Mistério.
Bravamente








Outro Amor

O amor
não é nada
daquilo que penso
Muito menos
aquilo que sinto

O amor é...

O amor
é Aquele tudo
que basta
O  infinito

Um lugar lá
Onde findo








Quem é Você ?

O que me aparta de ti
O que me aperta o peito
É não mais saber
com quem me deito

Nem mulher. Nem amante
Namorada. Acompanhante

Atrás de cada máscara
de personagem rasa
Quem é você? Quem é você
Minha flor misteriosa?










Nós Dois

Nós dois somos um
Eu sou nenhum de nós

Eu sou mais eu
Quanto mais você aparece

Acontece quando a gente se esquece
Quando o Sol se põe e Anoitece

Do Corvo Gigante, a sombra desce
Quando a  Terra toda estremece:

Dois nos tornamos um
Na coragem do amor
Na ousadia do prazer
Que a Morte engrandece








Preguiça

Você me vê como pode:
Como um sonho/pesadelo
dentro de sua profunda preguiça

(Assim te vejo eu
Assim nos vemos todos)

Mas há um momento
em que te vejo como
todas as estrelas do céu
ou o próprio céu entranhado

Porque quando o tempo é bom
e o céu se abre e a Lua insiste
É sempre de uma forma estranha
                            que você existe
                             Se é que existe...









Onde o Amor Nasce

O cão late
Entre um som
e outro som
O silêncio

O Sol bate
e a sombra
da mosca
corre o chão

No coração
da mancha
de silêncio
Menor que
o menor grão
Alguém assiste

Humilde
e igual
a si mesmo
O encantado Céu
onde o Amor nasce







Pra  ser  minha amada

Pra ser minha amada
Deves ser minha amiga
Pra ser minha amiga
Deves ser minha amada

Você dá vida
Você dá samba
Você dá calor
E tudo isso te dou

Pra haver amizade
Pra haver amor
Devemos navegar
No Mar da Liberdade
No Mar das estrelas
Infinitas ao redor








O Que Quero

Eu te amo
E não quero nada de ti
Ou quase...

Só quero te sentir
suave bem-te-vi
Pra me ofertar
Um só grão de pólen
Um caminhão de flores
Seu balé de odores
Um sorriso, um choro
raros, enfim
Um olhar inteiro
só pra mim

Eu te amo
E não quero nada de ti
...ou quase nada
...ou quase tudo








Surgir  no Amor

Ao tentar me prender
Ao tentar me conter
Me tratar na porrada
Riu, dou risada pra valer!

Se de mim
você não gosta
Azar o seu
Porque assim
posso ter você
mais meu

Mas se me ouvir
Pode até me amar
E se assim for
Só no amor devo surgir










Imprevisível Lucidez

Mais que sua língua
Mais que sua tripa
Mais que sua entranha

Quero o fundo de ti
Quero sua estrutura inteira
Sempre estranha
Porque sempre passageira

Mais que sua vulva
Mais que sua volúpia
Mais que sua loucura

Quero a imprevisível lucidez
A que faz, no espanto, tremer
Luz que sempre nutre
E nutrindo, faz o velho falecer









O Que É O Que É

O que é isso
que quando dormir
parece vigília?

Que quando sonhar
parece de verdade
viver?

O que é isso
que quando acordar
parece adormecer

e viver parece
fingir e partir?








Sonho Não É Sonho

O relógio soou alto...
E nada aconteceu!

Porque acordar
é como não acordar
Porque dormir
é como não dormir
Sonhar é como
não sonhar
Vigiar é como
não vigiar

Minha amada é tão linda
como que nascida de um sonho
O Homem é tão misterioso quanto
o Monstro no sono estranho

Assim, o dia que você vigia
é tão lindo quanto a Deusa vista
numa noite sinistra e medonha






Agora

Agora
Nós dois somos um
com a andorinha
do outro lado do Planeta

Nesse ponto preciso do Tempo
Entre a longevidade do Antes
e a longa linha do Depois
Nos encontramos todos
pra formarmos um só corpo

Agora...
E para nunca mais









Transparência

A mulher invisível
...aos olhos do homem
O homem invisível
...aos olhos da mulher

O olhar é um sentido frágil
A transparência é como o som
(quanto de atenção
  a música requer?)

Difícil entre nós, mas inevitável!
Para além de distraídos animais
Somos mais que a sonolência estável
Somos a invisível transparência da alma
Que procura e não descansa jamais






Vida em Festa

Apesar de tudo
Apesar do  mundo
louco que te cerca

Apesar do duro conflito
Apesar do frio e do medo
Do mar no peito que se agita

Podes avistar o Vale
E  no imenso verde Vale
adentrar por sua porta

Apesar de mim e de ti
Apesar da dolorida vida que brota
Apesar da morte sempre bruta

No Vale, avistas a Vida
Sempre em festa





Natureza em Nós

     Porque a Natureza
     Está em todo lugar
      E só se pode estar
   No coração da Beleza

 Quando distantes do Mar
Da mata, do céu de estrela
 Miro o brilho de seu olhar
 e sinto meu corpo no seu:
  A imensidão mais Bela

      Podemos só estar
   No coração da Beleza
     Porque a Natureza
      Está em todo lugar






Vale da Lua

A Noite é Infinita
a Lua transita no céu alto
e entra pela porta aberta

               a alma atenta
       para o som
  de silêncio e vazio
  que a Lua canta
     e ecoa livre
            pelo vale

no vale da Lua
há um certo vazio
um certo silêncio
que a alma reclama

um querer ser livre
                 que nunca termina


     




Coisas

As coisas passeiam
Desatentas
Mergulhadas em seus mares densos
Sonolentas.
Como estranhos outros
Passeiam

Não há coisa
que eu conheça
Não há coisa
que me aporte

Ilha navegante
Passeio como coisa
Curioso
Sem nunca poder saber
Aceito os riscos
do canal estreito
e do Mar gigante
Para brincar de navegar
Confiante.







Memória

Nas horas
A sós com alvoradas
Deves lembrar
Só deves lembrar
de esquecer

Para partires
com o Sol
e esquecido
radiares inteiro

Nas horas
A sós com alvoradas
Deves esquecer
Só deves esquecer
de lembrar

Sem se perguntar
Sem se recordar
Quem fostes








Sem Mistério

Não há problema
Não há charada
Não há mistério
pra resolver

O jeito é:
Ficar sem saber
Não poder dizer
do que se trata

O jeito é
Não Poder...











III – Ocaso do Corpo
         (na palavra)





  





Ruídos

O som do Oceano
chega aos meus ouvidos
como Sinfonia
de quase silêncio

Pudesse ouvi-la calado
Mas minhas cores, meus mares
Se impõem como gemidos
gracejos, dúvidas, vontades
e tantos outros sons já vividos

Encontram-se os sons dos dois mundos
E não há como ouvir a música branca
do mar a minha frente
sem que a inunde de ruídos








Identidade

Seria justo
dizer ser eu 
aquilo que faço?

O que dizer
Então, do ocaso
do meu corpo
em  teu regaço?

Do ocaso do seu corpo
em minha boca muda
em meu verbo morto?








Como Se...

Como se
Agora mesmo
Tudo falso
fosse

Como se
um mundo
todinho novo
houvesse

Como se
pudesse
tudo ser
em nova referência

Como se
Mirando o corpo
o céu e o Mar
Mais lúcido
estivesse







São Tomé das Letras

O que digo
só revela a pobreza
do que digo

O que vivo
vibra numa caixinha
fechada

Tivesse eu um horizonte
novo de palavra:
Pôr do Sol radiante
de São Tomé das Letras










Luz da Dúvida

Assim chamo
minha linda amada
Que ilumina, aquece
e por fim, incendeia

Assim chamo
a visão do Real
Fogo do Inferno Celestial
Absoluta chama

Para lembrar-me de mim
chamo a tocha mágica
que me escurece
em nova dúvida








Saber de Si

Saber de si
e do vasto mundo
que é tua casa
Teu corpo, tua cidade
É saber que não há “si”
Nem  tampouco “mundo” há

Saber de si
é saber onde mora a Morte:
no mesmo quarto da Vitalidade










                    
Palavra

Pouca importância
parece ter a palavra
diante do que sinto
e da experiência dada

O que dizer do Fato
Essa ruidosa saliência
que sem a palavra
parece perder-se em sonolência?

Por isso a pergunta:
O que de fato importa?
Porque sem falar, sem dizer
Parece que muito pouco
Pode vir, um dia, a Ser








Poesia

A Palavra é aquela
Que inventa o mundo

A Arte que é bela
Toca o ouvido mais surdo

A Poesia é ela
Quem descobre a vida

E eu sigo atrás dela
Para perguntar-me atônito:

Quem é ela? Quem é ela?