17.3.12
14.3.12
Imagem de capa
da série UliSSeS
por AGUILAR
Velocidade
da Carne
Marcos Arrais
I
- Velocidade da Carne............ 2
II – Coração do Mistério........... 30
III
– Ocaso do Corpo..................47
I - Velocidade da Carne
Velocidade da
Carne
Tudo é novo
E a vida se acelera:
Raras, inefáveis direções!
Bem quando o
que mais quero
é calma
Calma para enfrentar a
Carne.
Enigma
Toca-me este sabor
estranho e
íntimo
Roça-me a pele
Arrepia-me o cabelo
O enigma obscuro
Um gosto de morte
Agarra-me a língua
Apanha-me o sexo...
E põe-me inteiro!
Num breve momento
Absoluto
Caçador na Madrugada
O
caçador não mais se encontra
Foi procurar sua carne
Foi procurar seus ossos
Foi procurar seu sangue
na terrível madrugada
Se ele volta, não se sabe
Carros
passeiam velozes pela estrada
Vozes estridentes se misturam
ao ronco dos motores
As
turbinas lançam sua fumaça
escura e pesada pelos ares
O
caçador saiu para uma volta
Voltou
com sua carne
Seus
ossos, seu sangue
E
mais uns litros de cachaça
Terror
Indiferente
Passo num vôo veloz
pela vila desconhecida
Só o Diabo me aterrissa
O vento novo me apara
Mas em terra firme
nada mais resta
além do Terror
O Terror puro
de quem nada sabe
O Terror puro
de quem desconhece
e desconhece
mais que tudo
a Natureza pura
e indiferente
Do Diabo
Proposta Insana
Para
chegar mais perto
do
que procuro dizer
Para
fazer ceder
Essa
musculatura rígida
Esse
gelo tático
de
sobrevivência
Posso
prestar uma ajuda
Insana
De
imediato
Deves
perder toda esperança
Deves
ser reduzido e amplificado
à
sua realidade absoluta
Deves
ser simples e atento
às
coisas mais óbvias e simples
Deves
lembrar que a velocidade
É máxima
Dentro
de teu tempo tão instante
Por
fim e desde o princípio
(eis
o mais importante)
Deves
saber que
não
deves nada
A
ninguém
E
a nada
O Destruidor
A destruição bate a porta:
Um, dois, três toques
Que seja...
A casa está cercada
Janela e portas arrombadas
Que seja...
O engenheiro mina a fundação
Será a definitiva implosão?
Que seja...
Rio tranqüilo, como quem
entendeu o achado
Uma grande e destruidora
gargalhada explode
Acho que, enfim
Entendi o recado
Surfista de
Trem
O coração dispara!
Com uma das mãos afrouxe o cinto
Com a outra, apare o trem
desgovernado, sem direção
Mas se não pára, resista!
Salte e suba na coragem
Na manha malandragem
do despossuído
Porque agora é a vez !
Equilíbrio risco do surfista de trem
no vai-e-vem, cai-e-não-cai
até a próxima estação
Tarzan, o
Filho da Selva
Tarzan, o filho da selva
A selva, o filho do homem
A selva, o lar de Tarzan
Tarzan, a casa do homem
A selva de Tarzan
corre nas veias do homem
para lhe dizer a que veio
Na viagem de seu sangue
segue a amizade de Chita
e o amor violento e imprevisível
De King Kong
Dia da Espada
Eis o dia...
De novo a lâmina fria
da espada
no umbigo
O cheiro doce da sangria
O brilho sincero, que tanto queria
Me pergunta: para que vivo?
Suor frio...
Tremer de
mãos...
E a miragem
do Sol que aparece
em mil cores
desconhecidas
Enquanto o
sangue escorre
pelos dois
lados da espada
Me
equilibro/desequilibro
sobre a
lâmina afiada
a separar os
Dois Mundos
A Guerreira
O
dia vale pela luta
A
luta vale pela vida
Por
mais uma vitória
na
ínfima vida da guerreira
Porque
fora disto
Pra
ser franco
Pouco
há de sentido
Mas
muito há de heróico
O
dia vale pela luta
A
luta não vale pela luta
A
luta vale pela invenção
Da guerreira
Novo Mundo
Parei de esperar
Porque nada importa
no estranho Mundo
que exibe a cor do ar
(A voz de Deus
O cheiro do Demônio)
Deixei de lembrar
Já que tudo acontece
no estranho Mundo
de instantâneo encantamento
(Sob o amor de Deus
Sob o beijo do Demônio)
Deuses e Demônios
Como
o arredor pode
Ser
tão estranho?
Como
o mundo pode
Estar
contaminado
de Deus e Demônio?
Entre
Deuses e Demônios
e
outras idéias débeis
e desânimos
Persistimos
caminhando
Mas
persistimos e
caminhamos...
Viagem
Penso que vim para aprender
um pouco a viver
Aprender, humildemente
o
possível, o acessível, o permitido
Sinto que vim para aprender
a perder, aprender a morrer
sem terror, somente no medo
possível e humano
Vejo que vim para aprender
a
renascer uma, duas, mil vezes
novamente, humildemente
no acessível, no permitido
Cujo
limite só se descobre
na coragem do abrir
as grades do desconhecido
Creio
ter vindo para aprender
Desta coragem
Para
a aventura da sempre nova
e perigosa viagem
O Que
Acontece?
O que acontece que
quanto mais te perco
mais te amo?
Que quando te vejo
tanto estremeço
que esqueço de te amar?
O sabor da tua boca
O calor de teu ventre
Com que força surgem
Quando perco o medo
de perder e morrer por inteiro
Quando me atiro, me arremesso
E de ti nada espero
...quando já perdido
Gravidade
Do
alto do pequeno avião
O
coração bate mais forte
ao
ver a tempestade
ameaçar
suas asas
O
mundo é aquático
no
Amazonas
Tremo
de medo
com
o trovão elétrico
Luz
do dia...
Avistamos
do Amazonas
O
Delta.
Corre
o grosso caldo
(Veias
de minha mão)
Para
desaguar no Mar
de
mistério
Noite
fria...
Corta
o céu
o
raio paralisante
Faz-me
pequeno
Muito
Sua
luz de eletricidade e morte
(Veias
de minha mão)
desabam
do céu no chão:
Secreta
gravidade
Tempestade
A
tempestade
nas linhas da mão
e a calmaria
que depois da chuva
invade...
Amanheceu
claro o dia
Onde
é feita a Liberdade!
(Um
súbito raio de Sol
faz,
rápido, de repente
Com
que tudo se acabe
pra
despertar diferente)
Subcutânea
A
pele é mágica
Bem
mais que mera
aparência
Mas
ainda há
a
alma na medula
o
coração da célula
Por
trás da casca dura
Sob
a superfície clara
A
realidade é outra
A
escuridão é densa
Substância
Que o beija-flôr baile
diante dos olhos abertos
Que o morcego crave
suas presas na carne
Viver-me basta
em qualquer aparência
Sob a teia do Sol amarelo
Sob a prata da chuva
a molhar os pêlos
...para não
mais que viver
minha própria
substância
Polvo
Um polvo
Um Sol luminoso
De infinitos tentáculos
Um polvo
Um todo
Universo
Líquido, sólido, gasoso
Um polvo
Misterioso
De um claro obscuro
Duvidoso
Pendura-se nas paredes
Transparentes deste
Mundo-Oceano
Esfinge
Água-viva
Minério-animal
Indecifrável
Viva a água
Solúvel o sal
Mar navegável
Espraio no espaço viajável?
Ou serei o próprio espaço
Num ponto indissolúvel?
Mansão do Corpo
Seu
corpo é minha mansão
Assim
como o céu: Imensidão
Exaltado
bate forte o coração
com tamanha beleza
Você
meu amor. Eu guardião
Faço
no amor o milagre da união
de
seus elementos e a fusão
como no coração da estrela
Nem
mais feia
Nem
mais bela
Nem
maior nem
Menor
que ela
Teu
corpo sou eu:
O
Infinito a ver-me refletido
no céu estrelado
Quando
abro as janelas
Desejo
Amanheceu...
Céu
cintilante...
curiosas
nuvens
rarefeitas
Com
o Sol
desperta
meu corpo
Minha
amada me acorda
com
seu beijo
O
bico do seu peito
aponta
e dispara
meu
desejo
O
desejo
é aquele
que corre os dias
Que
corre o mundo
e
nunca pára
O
desejo é o cara
Língua
O suor sob o Sol
faz brilhar o teu
corpo todo dourado
O Sol lambe
meu corpo e o teu
entregues e atados
O sal do teu corpo
sai na minha língua
e ah!!!
Deixa estar...
Deixa ficar...
No meio do torpor
que o teu corpo
minha saliva água
Delícia
Sua
pele
Mais
fina
Sua
carne
Mais
lisa
Sua
forma
Mais
linda
O
Espaço
Paraíso
Onde
Eu
Respiro
Pra
Que
Você
Exista
Mente da Pele
A
mente pensa
Pensa
que está na cabeça
A
pele sente
A
mente pensa
que
sente a pele
A
mente mente
quando
cabeça
Assim
pensa a pele
Pele
A
pele
Nos
une
E
afasta
Quem
é ela?
A
pele
Nos
abraça
E
é uma
Dos
pés à cabeça
A
pele
Essa
que
Me
aquece
É
sua
Agora
que
Nua
A
confiança
É
minha
Fronteira do Medo
A
fronteira do permitido
quando
em ti é brincadeira
no
quarto de sussurro proibido
Um
mergulho em teu umbigo
(O
abismo depois da loucura)
Onde
sou mais que teu
Sou
todo meu sem fronteira
A
língua de carícia doce e lisa
A
boca em tua coxa inflama
Os
lábios no calor de tua xana
A
dentada no tesão da tua bunda
A
fronteira do oculto medo
Desaparece
no encontro que é nosso
Para
vibrar no riso de selvagem alegria
Pequena Chama
A pequena chama
fala do Sol
Do nascer e do morrer
Fala dos astros
Infinitos no céu
A pequena chama
Fala da leveza
Daquilo comum a tudo:
A falta de peso no Todo
A pequena chama
fala do que é como eu:
Você no Eu do Amor
enquanto te como
Ar
Levanto-me do sofá
e saio a procurar a brecha
a fresta por onde
o ar passa
Por onde eu possa
profundamente respirar
Banhar a pele no ar
Na carícia mais sutil
Por onde a experiência vívida
possa
transbordar
Mas, talvez, nem precise levantar
Pois, no conforto distraído e
imóvel
Na forma mais tola e fácil
eu possa estar sempre no
lugar
onde o ar, ele mesmo, sempre
está
Viver
Viver
no corpo
Viver
com o corpo
Viver
o corpo
O
próprio corpo poder ser
E
mesmo sem saber
o
que Vida e Corpo são
Poder
falar de prazer
amizade
amor gratidão
É
o que o corpo pede pra dizer
É
o que a vida ensina sem saber
Movimento
Estou imóvel
a mil quilômetros por hora
a mil quilômetros de casa
e não saí do lugar
Estou aqui, estou lá
A caminho!
Estático no lugar
de puro
movimento
Estático
onde mais posso sentir
este
Mundo todo táctil
Instante
Tempo sem tempo
Sem esperança
Sem lembrança
Onde tudo acontece
Onde você se esquece
Num bocejo descansado
De Tigre
Novidade
Vida é feita
de um tecido
muito delicado
Quando o medo
bem cuidado
se acalma
Pode-se sempre
ver, da vida
O assombroso lado
Serpente
No adormecer-antes
Estremeço
De repente a língua
Da serpente surge
No semblante sereno
De Buda
Inquietação
Nada
inquieta tanto
quanto
a calma
Nada
perturba
tanto
a alma
quanto
a água
parada
deste lago fundo
Por
isso
estaco e paro:
Para
sentir emergir
esse
dragão lindo
Para
ouvir o rumor
desse
monstro imundo
Criar...
Criar...
Que
pretensão!
Não
há porque fazer
Ou
deixar de fazer...
Mas
o ar entra
Pela
porta aberta
Como
um furacão
E
faz brotar do silêncio
A
palavra e o som
Que
faz tremer
Criar...
Não
é criar
É
matar e morrer
Possível Liberdade
A
liberdade é só para quem
Como
eu, gosta, também
do
gosto amargo das coisas
e
das coisas sem gosto nenhum
A
liberdade só se toca ali
por
trás do bloco duro
Contra
o áspero muro
e o
espesso vidro que não vi
Por
isso, que o desconforto e a dor
sejam
bem vindos, quando assim for
Que
os reconheço como amigos
a
indicar uma real e possível liberdade
Dominação
Aquele
que te deu a mão
Um
dia te dominou
Aquele
que te salvou
Um
dia jogou-te ao chão
Tudo
que te faz cativo
Um
dia te libertou
Tudo
que te libertou
Um
dia te agarrou
Agora
é tua vez de agir
E
agindo encontrarás
Tua
nova prisão
Tempo de Ninguém
O
vampiro na noite afora
Um
tiro perdido, a esmo
O
diabo na encruzilhada
O
sentido nas asas do Tempo
Tempo
de ontem
Tempo
de hoje
Tempo
de amanhã
Tempo
seu
Tempo
meu
Tempo
de ninguém
Deus
nos deu pouco Tempo
E
o Momento que é imenso
Um
diabo, um vampiro, um tiro a esmo
E
um futuro grande que é agora mesmo
...No Presente
No
futuro
A
estratégia para te ter
Prever
onde te encontrar
Planejar
para que não faltes
Do
passado
A
ciência para não falhar
Repetir
para conservar-te
ao meu lado
Evitar
o risco e o erro
novamente
À
serpente
Nada
disso importa
À
águia
Cabe
o olhar indiferente
Ao
urso
A
Vida confiante
No
Presente
Busca do Sentido
Enquanto
a Vida passa
e
o Tempo avança
Inventamos
o significado
que
a palavra
na
amorosa boca alcança
Mas
a língua heróica
fala
do sentido sua falta
De
uma tal insignificância
que
no final a boca cala
e
abala qualquer confiança
Faróis
No
Mar a miragem
de
faróis radiantes
acalmam
a viagem
E
ofuscam a verdade
A
mais simples verdade:
Faróis
não são Sóis Incandescentes
São
luzes mirradas e tristes
Faróis
e seus raios artificiais
Não
iluminam marinhas serpentes
Não
revelam o poder dos dragões
(Na
solidão da viagem
Chama
a atenção
A
Constelação Desconhecida
Que
lança sua flecha acesa:
Vê-se
do Céu a explosão
sobre
nossa cabeça)
Heroína
A heroína arremessa a lança
que me atravessa
Quando sua ponta me toca
A respiração se solta
e um torpor me alivia a testa
Sinto que mais nada importa
A heroína arremessa a lança
e
desperto de um sonho
Da ciência banal na vigília
para outra estranha fantasia
Novo Movimento
O
Tempo novo
Pede
que tu te tornes outro:
Maravilhoso
movimento!
Monstro
felino lindo e ágil
toma
teu rosto falso de assalto
Pra
nascer a face certa
Brava,
calma ou amiga
Na
exata hora da luta
Na
hora certa da orgia bruta
O
Tempo novo
pede
que saias do aposento
para
ser leve e brevemente outro:
Tão
livre quanto o vento
Tão
coeso quanto o tigre
em movimento
Matilha
Pode
estar certo
A
matilha que te persegue
não
fala de amor
Os
cães e suas bocarras gigantes
não
dizem obrigado nem por favor
Quando
seus dentes tocam tua pele
A
elétrica corrente corre por sua
espinha: o terror
Fique
esperto
Cães
ferozes te vigiam
Talvez
não tenham muito amor
Habitam
não se sabe que mundos
Estão
atentos, alertas, vitais
Seus
olhos faiscantes miram suas mãos trêmulas
Não
adianta escondê-las para trás
Não
esteja mais tão certo
do
que querem seus rivais
Ferozes
cães gigantes
te
procuram, te perseguem
Quem
sabe, por amor e amizade
Mire
bem nos olhos famintos
sua
vontade
Verás,
talvez, cães a farejar
seu
caçador, seu senhor
Para
encontrar o verdadeiro amor
em
sua fiel lealdade
Minha Tribo
Sem
você não pode ser
Com
você é tão difícil
Sendo
você é impossível
Nós
dois somos seres
de
duro trato
Você
é o Espírito de Época
Tem
o jeito do tempo atual
Que
cai e brota no Espírito dócil
Mas
minha tribo
é
de um Espírito muito brabo
que
aspira a uma absurda Liberdade
Para
Você intolerável
Luta do Espírito
Há
um vapor estranho
no
ar que ofusca o olhar
diminui as mentes
mina as palavras
aleija os sentidos
o
que há de mais concreto e real
é
o Espírito de um local
num
tempo preciso
que
brinca de criar
um
corpo igual mas cativo
com
o qual negocio
mas
não me submeto
Por
meu Espírito liberto
Com
meu Espírito desperto
Espreito e luto
Linhas do
Tempo
Mar bravio as ondas prometiam...
Perfeitas em vôo e quebradeira
Seus tubos de água e vento
entoavam melodias que nem todos ouviam
Prometiam menos o esperado...
Um canto conhecido
fez-me infantil novamente
Meu corpo embalsamado...
Um outro canto olvidado
fez-me quase morto
No mar, envelhecido
Um terceiro canto
banhou-me no mesmo instante
Morto e renascido
no vértice fundido
das três linhas cruzadas
do Tempo
Abraço do Poder
Quem
foi Napoleão...
Quem
foi Da Vinci...
Quem
pode saber?
Sei
de Napoleão
que
seu poder foi pobre
Sei
de Leonardo
que
seu saber foi distração
Na
planície gelada e distante
(O
Céu azul acasala com a Terra e
Tocam-se
amorosos no Horizonte)
há
um urso cinza gigante
Que
tudo sabe
E
te convida
para
um abraço
de
Poder e Verdade
O Que Fazemos?
Talvez nada faça
de fato sentido
em tudo isso
que faço...
Talvez nada possa
saciar sua fome
pelo fato de ser falso
aquilo que você come...
O que fazemos por nossa fome?
O que comemos enquanto fazemos?
O que fazemos para alimentar o homem?
O que fazemos?
II – Coração do Mistério
Feitiço
Você diz
Eu acredito.
(A Verdade tem mil maneiras
De nos enfeitiçar)
Sobreviver à Verdade
Para sobreviver à Verdade
não há outra saída senão
reduzir-se em monstruosa
humildade
(É quando um grão de areia
equivale a um dragão
sobrevoando o Himalaia)
Daí as Asas do Juízo então
não mais trabalham
Num Tempo em que o Bem
faleceu
Num espaço onde a Maldade
Nunca existiu
Para sobreviver à Verdade
A Incrível Leveza do Ser
A
incrível leveza do ser
surgiu
do céu estrelado
pra
cair sobre sua cabeça
A
incrível leveza do ser
surgiu
para aliviar e torná-lo
radiado
A
estrela caiu
e
ele subiu com
novas asas
Voando,
tornou-se mosca
de leveza
Voando
esqueceu-se do
caminho e da pedra
E
viajou o mundo atrás de
detrito lixo
e
merda
O Torto
O que erguer
sobre as ruínas do futuro
sobre a areia movediça do
passado?
O que pode ser
enquanto desconforto
enquanto rabisco o verbo
torto
Senão a tensão pura do Ser
interrogado
A energia vacilante de
Hamlet contra o muro?
(A
ponte esticada entre
o Vivo e o Morto
O
riso da mãe e a dor do pai
do filho que eu parto)
No entanto
Antes o bicho ferido que o
Ser
anestesiado
Antes o Sol surrando a pele
que a falta no Ser
olvidado
O Que Não Se Almeja
No
limbo
No
lodo
Viver
todo
Enterrado
Na
espera
Estrangeira
No
vidro fosco
Do
dia nublado
No
limbo
No
lodo
Que
ninguém
Almeja
No
copo
Frio
E
entediado
De
cerveja
Ódio
O
ódio te toma e
Põe
teu corpo em forma
Agarra
então tua força que
Agora
a luta é sangrenta
Que
ordem no mundo é esta?
Que
fome de coisas é esta?
Que
vazio é este
que nada alimenta?
O
corpo de puro ódio cresce e
É
tudo o que te sustenta
Sem Pensar...
Ganhar, perder...
Nem ganhar, nem perder...
Nem pensar em ganhar
Nem pensar em perder
Estar ao teu lado e gozar
Sem pensar, sem pensar
Sem pensar...
Sereno da
Noite
O sereno da noite cobre a pele
Um banho de sol derrete a carne
A brisa leve suspende o corpo denso
Respirar e sintir...
E pensar sem pensar
...um breve instante
sem sequer imaginar
Os Céus
A
embarcação dispara
e
o cometa corta
a
imensidão do Céu
Infinito
de Mistério
O
Céu das estrelas
O
Céu dos meus olhos cerrados
O
Céu da boca silenciada
O
Céu da memória sem fim
O
Céu de meu amor no Mundo
O
Céu das coisas do Mundo
O
Céu das Coisas e Não-Coisas
O
Céu de todo corpo que sou
O
Céu de meu amor por Lucila
Onde
estou quando
encontro-me
em seus braços?
Onde
estou quando
teu
corpo é meu
Céu
de amor e soluços?
Onde
estou quando
o
limite do sono
sonha
Infinitos?
Onde
estava quando
os
Infinitos pela primeira vez
brotaram
nos olhos?
A embarcação
dispara
em
direção àquilo que sou
Sem
fantasia
Delicadeza
Uma
delicadeza bruta
respira
no sono claro
e
toca o coração cansado
Cochilo,
sonho e desamparo
dissolvem
o peito de pedra
para
uma alegria simples
e sem luta
Outra Delicadeza
Não
falo de mim
Não
falo por mim
Falo
dela: a delicadeza
Forte
e assassina
Cheia
de esperteza
A
cruzar o solo minado
A
passear pelo jardim encantado
Leve,
alegre e cantando
E
sem que ninguém veja
O
corpo inteiro armado
A
delicadeza
Amor
Meu
amor encontra-se
em teu corpo
No olhar que a alma
faz brilhar
No gesto
onde o espírito
se revela
No prazer
que seu sexo
Faz, para sempre, existir
Meu
amor perde-se
Em teu corpo
Em teus olhos
Em teu ventre
Para
ser um outro amor
No
coração do Mistério.
Bravamente
Outro Amor
O
amor
não
é nada
daquilo
que penso
Muito
menos
aquilo
que sinto
O
amor é...
O
amor
é
Aquele tudo
que
basta
O infinito
Um
lugar lá
Onde
findo
Quem é Você ?
O que me aparta de ti
O que me aperta o peito
É não mais saber
com quem me deito
Nem mulher. Nem amante
Namorada. Acompanhante
Atrás de cada máscara
de personagem rasa
Quem é você? Quem é você
Minha flor misteriosa?
Nós Dois
Nós dois somos um
Eu sou nenhum de nós
Eu sou mais eu
Quanto mais você aparece
Acontece quando a gente se esquece
Quando o Sol se põe e Anoitece
Do Corvo Gigante, a sombra desce
Quando a
Terra toda estremece:
Dois nos tornamos um
Na coragem do amor
Na ousadia do prazer
Que a Morte engrandece
Preguiça
Você
me vê como pode:
Como
um sonho/pesadelo
dentro
de sua profunda preguiça
(Assim
te vejo eu
Assim
nos vemos todos)
Mas
há um momento
em
que te vejo como
todas
as estrelas do céu
ou
o próprio céu entranhado
Porque
quando o tempo é bom
e
o céu se abre e a Lua insiste
É
sempre de uma forma estranha
que você existe
Se é que existe...
Onde o Amor Nasce
O
cão late
Entre
um som
e
outro som
O
silêncio
O
Sol bate
e
a sombra
da
mosca
corre
o chão
No
coração
da
mancha
de
silêncio
Menor
que
o
menor grão
Alguém
assiste
Humilde
e
igual
a
si mesmo
O
encantado Céu
onde
o Amor nasce
Pra ser minha
amada
Pra
ser minha amada
Deves
ser minha amiga
Pra
ser minha amiga
Deves
ser minha amada
Você
dá vida
Você
dá samba
Você
dá calor
E
tudo isso te dou
Pra
haver amizade
Pra
haver amor
Devemos
navegar
No
Mar da Liberdade
No
Mar das estrelas
Infinitas
ao redor
O Que Quero
Eu
te amo
E
não quero nada de ti
Ou
quase...
Só
quero te sentir
suave
bem-te-vi
Pra
me ofertar
Um
só grão de pólen
Um
caminhão de flores
Seu
balé de odores
Um
sorriso, um choro
raros,
enfim
Um
olhar inteiro
só
pra mim
Eu
te amo
E
não quero nada de ti
...ou
quase nada
...ou
quase tudo
Surgir no Amor
Ao
tentar me prender
Ao
tentar me conter
Me
tratar na porrada
Riu,
dou risada pra valer!
Se
de mim
você
não gosta
Azar
o seu
Porque
assim
posso
ter você
mais
meu
Mas
se me ouvir
Pode
até me amar
E
se assim for
Só
no amor devo surgir
Imprevisível Lucidez
Mais
que sua língua
Mais
que sua tripa
Mais
que sua entranha
Quero
o fundo de ti
Quero
sua estrutura inteira
Sempre
estranha
Porque
sempre passageira
Mais
que sua vulva
Mais
que sua volúpia
Mais
que sua loucura
Quero
a imprevisível lucidez
A
que faz, no espanto, tremer
Luz
que sempre nutre
E
nutrindo, faz o velho falecer
O Que É O Que É
O
que é isso
que
quando dormir
parece
vigília?
Que
quando sonhar
parece
de verdade
viver?
O
que é isso
que
quando acordar
parece
adormecer
e
viver parece
fingir
e partir?
Sonho Não É Sonho
O
relógio soou alto...
E
nada aconteceu!
Porque
acordar
é
como não acordar
Porque
dormir
é
como não dormir
Sonhar
é como
não
sonhar
Vigiar
é como
não
vigiar
Minha
amada é tão linda
como
que nascida de um sonho
O
Homem é tão misterioso quanto
o
Monstro no sono estranho
Assim,
o dia que você vigia
é
tão lindo quanto a Deusa vista
numa
noite sinistra e medonha
Agora
Agora
Nós
dois somos um
com
a andorinha
do
outro lado do Planeta
Nesse
ponto preciso do Tempo
Entre
a longevidade do Antes
e
a longa linha do Depois
Nos
encontramos todos
pra
formarmos um só corpo
Agora...
E
para nunca mais
Transparência
A
mulher invisível
...aos
olhos do homem
O
homem invisível
...aos
olhos da mulher
O
olhar é um sentido frágil
A
transparência é como o som
(quanto
de atenção
a música requer?)
Difícil
entre nós, mas inevitável!
Para
além de distraídos animais
Somos
mais que a sonolência estável
Somos
a invisível transparência da alma
Que
procura e não descansa jamais
Vida em Festa
Apesar
de tudo
Apesar
do mundo
louco
que te cerca
Apesar
do duro conflito
Apesar
do frio e do medo
Do
mar no peito que se agita
Podes
avistar o Vale
E no imenso verde Vale
adentrar
por sua porta
Apesar
de mim e de ti
Apesar
da dolorida vida que brota
Apesar
da morte sempre bruta
No
Vale, avistas a Vida
Sempre
em festa
Natureza em Nós
Porque a Natureza
Está em todo lugar
E só se pode estar
No coração da Beleza
Quando distantes do Mar
Da
mata, do céu de estrela
Miro o brilho de seu olhar
e sinto meu corpo no seu:
A imensidão mais Bela
Podemos só estar
No coração da Beleza
Porque a Natureza
Está em todo lugar
Vale da Lua
A
Noite é Infinita
a Lua
transita no céu alto
e
entra pela porta aberta
a alma atenta
para o som
de silêncio e vazio
que a Lua canta
e ecoa livre
pelo vale
no
vale da Lua
há
um certo vazio
um
certo silêncio
que
a alma reclama
um
querer ser livre
que nunca termina
Coisas
As
coisas passeiam
Desatentas
Mergulhadas
em seus mares densos
Sonolentas.
Como
estranhos outros
Passeiam
Não
há coisa
que
eu conheça
Não
há coisa
que
me aporte
Ilha
navegante
Passeio
como coisa
Curioso
Sem
nunca poder saber
Aceito
os riscos
do
canal estreito
e
do Mar gigante
Para
brincar de navegar
Confiante.
Memória
Nas
horas
A
sós com alvoradas
Deves
lembrar
Só
deves lembrar
de
esquecer
Para
partires
com
o Sol
e
esquecido
radiares
inteiro
Nas
horas
A
sós com alvoradas
Deves
esquecer
Só
deves esquecer
de
lembrar
Sem
se perguntar
Sem
se recordar
Quem
fostes
Sem Mistério
Não
há problema
Não
há charada
Não
há mistério
pra
resolver
O
jeito é:
Ficar
sem saber
Não
poder dizer
do
que se trata
O
jeito é
Não
Poder...
III – Ocaso do Corpo
(na palavra)
Ruídos
O
som do Oceano
chega
aos meus ouvidos
como
Sinfonia
de
quase silêncio
Pudesse
ouvi-la calado
Mas
minhas cores, meus mares
Se
impõem como gemidos
gracejos,
dúvidas, vontades
e
tantos outros sons já vividos
Encontram-se
os sons dos dois mundos
E
não há como ouvir a música branca
do
mar a minha frente
sem
que a inunde de ruídos
Identidade
Seria
justo
dizer
ser eu
aquilo
que faço?
O
que dizer
Então,
do ocaso
do
meu corpo
em teu regaço?
Do ocaso do seu corpo
em minha boca muda
em meu verbo morto?
Como Se...
Como
se
Agora
mesmo
Tudo
falso
fosse
Como
se
um
mundo
todinho
novo
houvesse
Como
se
pudesse
tudo
ser
em
nova referência
Como
se
Mirando
o corpo
o
céu e o Mar
Mais
lúcido
estivesse
São Tomé das Letras
O
que digo
só
revela a pobreza
do
que digo
O
que vivo
vibra
numa caixinha
fechada
Tivesse
eu um horizonte
novo
de palavra:
Pôr
do Sol radiante
de
São Tomé das Letras
Luz da Dúvida
Assim
chamo
minha
linda amada
Que
ilumina, aquece
e
por fim, incendeia
Assim
chamo
a
visão do Real
Fogo
do Inferno Celestial
Absoluta
chama
Para
lembrar-me de mim
chamo
a tocha mágica
que
me escurece
em
nova dúvida
Saber de Si
Saber
de si
e
do vasto mundo
que
é tua casa
Teu
corpo, tua cidade
É
saber que não há “si”
Nem tampouco “mundo” há
Saber
de si
é
saber onde mora a Morte:
no
mesmo quarto da Vitalidade
Palavra
Pouca
importância
parece
ter a palavra
diante
do que sinto
e
da experiência dada
O
que dizer do Fato
Essa
ruidosa saliência
que
sem a palavra
parece
perder-se em sonolência?
Por
isso a pergunta:
O
que de fato importa?
Porque
sem falar, sem dizer
Parece
que muito pouco
Pode
vir, um dia, a Ser
Poesia
A
Palavra é aquela
Que
inventa o mundo
A
Arte que é bela
Toca
o ouvido mais surdo
A
Poesia é ela
Quem
descobre a vida
E
eu sigo atrás dela
Para
perguntar-me atônito:
Quem
é ela? Quem é ela?
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